Luz e sombra

Madalena estava na sala de espera do dentista com um senhor que não parava de a observar. Com a intenção de amenizar o ambiente, dirigiu-se a ele fazendo conversa sobre o tempo e o dia bonito que fazia lá fora.

O senhor respondeu-lhe amargamente, pois não concordava nada com ela:  ele detestava dias de sol.

Madalena, surpreendida com tal resposta, questionou-o uma vez mais, absolutamente incrédula.

Finalmente, veio a explicação – algo rebuscada – para tal repulsa: tinha a ver com o facto de ele sentir que a luz o escurecia.

Ela – embora começasse a perceber que se estava a meter em assuntos demasiado profundos – não resistiu a confrontá-lo, dizendo-lhe que, provavelmente, ele teria medo da sua própria sombra.

Resoluto, o senhor respondeu-lhe que até podia temer tudo: menos a sua sombra.

Madalena já estava a ficar um bocadinho irritada com a conversa, até porque começava a não ver nenhuma lógica no tema. E, mais uma vez, disparou em direção do senhor: como podia alguém sentir que uma luz o escurecia?

Impenetrável , ele respondeu-lhe muito filosoficamente que, na realidade, tudo podia acontecer porque somos opostos de nós mesmos.

Ora aqui estava uma deixa para ela arrasar – pensou. E decidida, avançou: se tudo podia acontecer, então haveria alturas em que a luz o iluminaria. Estava orgulhosa desta sua conclusão e convencida que lhe tinha pregado uma rasteira mas, ao contrário, e mais uma vez, foi ele que não demorou a responder que ainda não tinha perdido a esperança mas que isso nunca lhe tinha acontecido. Sempre a desarmá-la.

Conclusão da história: ele divertiu-se imenso e ela jurou que, de futuro, nunca mais abriria a boca numa sala de espera do dentista – só mesmo quando se sentasse na cadeira para fazer o tratamento.

Relações Conscientes

Eu faço o que é bom para mim, ele faz o que é bom para ele; se pudermos encontrar-nos  e fazê-lo em conjunto (será maravilhoso), podemos chamar-lhe uma relação saudável e consciente.

Relações conscientes e saudáveis são aquelas em que (pelo menos para mim) as pessoas conseguem manter as suas identidades no caminho que fazem juntas.

Não é fácil fazer esta gestão; requer muita maturidade, muita atenção plena e muita consciência de nós e do outro.

E isto é válido para qualquer relação, seja ela entre um casal, seja entre amigos, seja entre quem quer que seja; o que importa (a única coisa que importa) é o respeito que se sente por nós próprios e pelos outros.

Quando sentimos esse respeito, fica mais fácil entender (digo eu) do que se fala quando se chama de saudável a uma relação.

Muita gente confunde sentimentos e acha que gostar do outro é fazer aquilo que ele quer que façamos ou vice-versa; não, não é: isso é viver-se uma vida que não é a nossa .

Vamos ver, então, se ficou compreendida esta noção do que são relações saudáveis e conscientes: se é bom para mim, quero; se é bom para ti, queres; mas, só se for bom para os dois, é que podemos viver isso, juntos (senão, alguém vai ficar penalizado).

Adição e Terapia Transpessoal

Há 3 meses que Carlos não saía de casa: caíra numa depressão profunda depois da partida do amor da sua vida. Naquele dia – particularmente brilhante – parado em  frente à janela do seu quarto, tomou, finalmente uma decisão: tinha de sair de casa e começar a enfrentar a vida com outro ânimo. Arranjou-se como se fosse encontrar com a sua amada, preparou o pequeno almoço, meteu-o numa cesta e foi para junto do mar, onde permaneceu toda a manhã – a saborear e a contemplar.

Na verdade, o que o havia motivado para esta suposta reacção não foi, propriamente, um acto de consciência do seu mal: Carlos tinha descoberto o seu bálsamo num charro que encontrou numa gaveta, no quarto do irmão.

Do charro à cocaína foi um instante que se passou na sua vida. Quando a família  (que pensava que Carlos tinha, finalmente, feito o luto da morte da namorada) se apercebeu do que estava a acontecer, já era tarde. E, como se repete em quase todas estas histórias, Carlos entrou em negação. A seguir, apanhado em flagrante pelo irmão, lá admitiu a situação mas que estava tudo controlado. Foi difícil assumir o problema com que se debatia. Foi já num estado deplorável que aceitou ir para um centro de recuperação.

Aí passou os seis meses seguintes. Quando saíu falou do bem estar-estar que sentia, do sentido que lhe fez a desintoxicação física, mas também partilhou que não gostou do fundamentalismo das reuniões e das sessões com o psicólogo. Acabou mesmo por desistir delas.

Foi quando a família se mobilizou para encontrar uma alternativa para a sua orientação. Tomaram conhecimento, então, de uma terapia muito eficaz, entre outras coisas, no acompanhamento de pessoas com adição: a Terapia Transpessoal.

Foi a solução: Carlos não parece o mesmo. Com esta terapia, aprendeu a conhecer-se melhor, a gostar de estar consigo próprio, a lidar com as perdas e os lutos, a aceitar as suas sombras e, sobretudo, a abraçar com amor o que o Universo lhe dá.